THE AMAZING REALITY OF THINGS

The amazing reality of things
Is my discovery every single day.
Every single thing is what it is,
And it is difficult to explain to anyone how much it delights me,
And how much this is enough for me.

Just exist to be complete.

I have written plenty of poems.
Should I write many more, of course.
Every single poem has talked of this,
And all my poems are different,
Because for everything there is a way to say it.

Sometimes l find myself staring at a rock.
I do not wonder if she has feelings.
I do not get lost in calling her my sister.
But I like her because she is a rock,
I like her because she has no feelings,
I like her because she doesn’t have a relationship to me.

Other times I listen for the wind,
And I think only, to listen for the wind was worth being born.

I do not know what others will think in reading this;
But I think this will be fine because I think it effortlessly,
No thought of others to hear myself think;
Because I think it without thoughts,
Because I say it as my words say it.

One time they called me a materialist poet,
And I wondered, because I did not think
That you could call me anything.
I’m not even a poet: I see.
If what I write has value, it is no longer mine:
The value is there, in my poems.
All this is absolutely independent of my will.

 

David Scanlon – England  – (1963 – )

Pessoa, F. (2018) Poems of Alberto Caeiro. In Portuguese and translated to English by David Scanlon. The Foolish Poet Press, Wilmslow, Portugal. THE AMAZING REALITY OF THINGS. Page Number 5.

A espantosa realidade das coisas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei-de escrever muitos mais, naturalmente.
Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada coisa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada,
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem esforço,
Nem ideia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos,
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.

Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer coisa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa- Portugal (1888 – 1935)

Caero, A.  (1925) Poemas Inconsultos.  Athena, No 5, Feb: Lisbon.

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