YESTERDAY THE PREACHER OF TRUTH

Yesterday the preacher of truths
He spoke to me again.
He spoke of the suffering of the working classes
(Not that the people who are suffering, are ultimately those who suffer).
He spoke of the injustice of the wealthy,
And of those being hungry, who do not know if they are hungry to eat,
Or if it is just hunger for someone else’s dessert.
He spoke of everything that made him angry.

How happy a man must be who thinks of the unhappiness of others!
What a fool, a man who does not know that the unhappiness of others are his.
Man does not heal himself from the outside,
Because suffering is not lacking in shade
Or the barrel does not have rings of steel!

If there is injustice it is like there is death.
I would never give one step to change
What they call injustice in the world.
A thousand steps you would take to do that
If it was only a thousand steps.
I accept injustice as I accept a stone not to be round,
And a cork tree not born a pine or oak.

Cutting an orange in two, the two halves are never the same.
To which half am I unjust – I, that will eat both?

 

David Scanlon – England – (1963 – )

Pessoa, F. (2018) Poems of Alberto Caeiro. In Portuguese and translated to English by David Scanlon. The Foolish Poet Press, Wilmslow, Portugal. YESTERDAY THE PREACHER OF TRUTH. Page Number 9.

Ontem o pregador de verdades dele
Falou outra vez comigo.
Falou do sofrimento das classes que trabalham
(Não do das pessoas que sofrem, que é afinal quem sofre).
Falou da injustiça de uns terem dinheiro,
E de outros terem fome, que não sei se é fome de comer,
Ou se é só fome da sobremesa alheia.
Falou de tudo quanto pudesse fazê-lo zangar-se.

Que feliz deve ser quem pode pensar na infelicidade dos outros!
Que estúpido se não sabe que a infelicidade dos outros é deles.
E não se cura de fora,
Porque sofrer não é ter falta de tinta
Ou o caixote não ter aros de ferro!

Haver injustiça é como haver morte.
Eu nunca daria um passo para alterar
Aquilo a que chamam a injustiça do mundo.
Mil passos que desse para isso
Eram só mil passos.
Aceito a injustiça como aceito uma pedra não ser redonda,
E um sobreiro não ter nascido pinheiro ou carvalho.

Cortei a laranja em duas, e as duas partes não podiam ficar iguais.
Para qual fui injusto — eu, que as vou comer a ambas?

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa – Portugal – (1888 - 1935)

Caero, A.  (1925) Poemas Inconsultos.  Athena, No 5, Feb: Lisbon.

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