THE KEEPER OF FLOCKS – XLVI

In this way or that way,
Conforming to the race but not racing,
I am able to at times speak my mind,
And at times say evil from the melting pot,
I will write my poetry without intention,
Like if writing were not something made of gestures
Like if writing something it happened to me
Like giving me the sun from beyond.

I try to say what I feel
Without thinking about what I feel.
I try to touch the words to the idea
And not use just one passageway
Of thought to the words.

I do not always feel what I know I should feel.
My mind only very slowly crosses the river and swims
Because the suit is heavy that humans are made to wear.

I try undressing myself from what I have learned
I try forgetting the method to recall what I was taught,
And scratch at the ink with which they painted my senses,
Unpacking my genuine emotions,
Unpacking-me and be me, not Alberto Caeiro,
Just the human animal that Nature produced.

And so I write, trying to feel Nature, not like a human,
But as one who feels the Nature and nothing more.
And so I write, all right, however bad,
However settled with what I’m saying, however error-prone,
Falling down there, raising up over there,
But always going in my way like a stubborn blind man.

Even so, I am somebody.
I am the Discoverer of Nature.
I am the Argonaut of genuine sensations.
I bring to the Universe a new Universe
Because I bring to the Universe its-self.

I feel and I write
Perfectly knowledgeable but not if I don’t see
When it’s five o’clock at sunup
And the Sun, that hasn’t shown its head
Over the wall of the Horizon,
Allows me still to see if I look at my fingertips
Clinging to the top of the wall
That the horizon is filled with low hills

 

David Scanlon – England – (1963 – )

Pessoa, F. (2018) Poems of Alberto Caeiro. In Portuguese and translated to English by David Scanlon. The Foolish Poet Press, Wilmslow, Portugal. THE KEEPER OF FLOCKS - XLVI. Page Number 56.

Deste modo ou daquele modo,
Conforme calha ou não calha,
Podendo às vezes dizer o que penso,
E outras vezes dizendo-o mal e com misturas,
Vou escrevendo os meus versos sem querer,
Como se escrever não fosse uma coisa feita de gestos,
Como se escrever fosse uma coisa que me acontecesse
Como dar-me o sol de fora.
 
Procuro dizer o que sinto
Sem pensar em que o sinto.
Procuro encostar as palavras à ideia
E não precisar dum corredor
Do pensamento para as palavras.
 
Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir.
O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado
Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar.
 
Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro,
Mas um animal humano que a Natureza produziu.
 
E assim escrevo, querendo sentir a Natureza, nem sequer como um homem,
Mas como quem sente a Natureza, e mais nada.
E assim escrevo, ora bem, ora mal,
Ora acertando com o que quero dizer, ora errando,
Caindo aqui, levantando-me acolá ,
Mas indo sempre no meu caminho como um cego teimoso.
 
Ainda assim, sou alguém.
Sou o Descobridor da Natureza.
Sou o Argonauta das sensações verdadeiras.
Trago ao Universo um novo Universo
Porque trago ao Universo ele-próprio.
 
Isto sinto e isto escrevo
Perfeitamente sabedor e sem que não veja
Que são cinco horas do amanhecer
E que o Sol, que ainda não mostrou a cabeça
Por cima do muro do horizonte,
Ainda assim já se lhe vêem as pontas dos dedos
Agarrando o cimo do muro
Do horizonte cheio de montes baixos.

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa – Portugal – (1888 - 1935)

Caeiro, A. (1914)[1946] ”O Guardador de Rebanos”  In Poemas de Alberto Caeiro (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Ática: Lisboa.

Work is no longer protected by copyright.

Print Friendly, PDF & Email
This entry was posted in David Scanlon (Translations), Fernando Pessoa, Poetry, Translation and tagged , , , , , , , , , . Bookmark the permalink.