THE KEEPER OF FLOCKS – IV

This evening the thunder crashed
Down from the slopes of the sky
Like a huge boulder…
Like someone from a high window
Was shaking out a tablecloth,
And the crumbs, that fall all together,
Make some noise when they fall,
Rainfall is pouring from the sky
And darkening the views…

Then the lightening thrashed the air
Shaking the space
Like a large head saying no.
I don’t know why – I wasn’t afraid –
I started preying to Santa Barbara
As if I was someone’s old aunt…

Ah! In that praying to Santa Barbara
I felt even more simple
Than I think I am…
It felt familiar and homely
And being in my life
Peacefully, like the wall of the backyard;
Being in thoughts and feelings is to have them
Like a flower has perfume and colour…

I felt like someone who could believe in Santa Barbara…
Ah! To believe in Santa Barbara!

(Those believers in Santa Barbara,
Think that she is a visible person
Or that she will think of them?)

(What artifice! What do
The flowers, the trees, the flocks
Know of Santa Barbara? …  A branch of a tree,
If it thought, could never
Create saints or angels…
Would it judge that the sun
Is God, and that the thunder
Is a crowd of people
Angry above their heads…
Ah! How the simplest of men
Are sick and confused fools
Next to the clear simplicity
And health that exists
In the trees and the plants!)

And I, thinking of all this,
I was once again less happy…
I was dark and taken ill and sombre
Like a day when all day thunder threatens
And nothing ever comes not even the night…

 

David Scanlon – England – (1963 – )

Pessoa, F. (2018) The Keeper of Flocks. In Portuguese and translated to English by David Scanlon. The Foolish Poet Press, Wilmslow, England. THE KEEPER OF FLOCKS - IV. Page Number 12.

Esta tarde a trovoada caiu
Pelas encostas do céu abaixo
Como um pedregulho enorme…
Como alguém que duma janela alta
Sacode uma toalha de mesa,
E as migalhas, por caírem todas juntas,
Fazem algum barulho ao cair,
A chuva chovia do céu
E enegreceu os caminhos…

Quando os relâmpagos sacudiam o ar
E abanavam o espaço
Como uma grande cabeça que diz que não,
Não sei porquê — eu não tinha medo —
Pus-me a rezar a Santa Bárbara
Como se eu fosse a velha tia de alguém…

Ah! é que rezando a Santa Bárbara
Eu sentia-me ainda mais simples
Do que julgo que sou…
Sentia-me familiar e caseiro
E tendo passado a vida
Tranquilamente, como o muro do quintal;
Tendo ideias e sentimentos por os ter
Como uma flor tem perfume e cor…

Sentia-me alguém que possa acreditar em Santa Bárbara…
Ah, poder crer em Santa Bárbara!

(Quem crê que há Santa Bárbara,
Julgará que ela é gente visível
Ou que julgará dela?)

(Que artifício! Que sabem
As flores, as árvores, os rebanhos,
De Santa Bárbara?… Um ramo de árvore,
Se pensasse, nunca podia
Construir santos nem anjos…
Poderia julgar que o Sol
É Deus, e que a trovoada
É uma quantidade de gente
Zangada por cima de nós…
Ah, como os mais simples dos homens
São doentes e confusos e estúpidos
Ao pé da clara simplicidade
E saúde em existir
Das árvores e das plantas!)

E eu, pensando em tudo isto,
Fiquei outra vez menos feliz…
Fiquei sombrio e adoecido e soturno
Como um dia em que todo o dia a trovoada ameaça
E nem sequer de noite chega…

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa – Portugal – (1888 - 1935)

Caeiro, A. (1914 – 1935)[1946] “O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Ática: Lisboa. (10ª ed). Alberto Caeiro is an heteronym of Fernando Pessoa.

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