THE KEEPER OF FLOCKS – XXVI

If I do interrogate when I am astonished
No new fresh flowers are born in the meadows
Nor does it change anything in the sun so that it becomes more beautiful…
(Even if fresh flowers were born in the meadow
And the sun changed to become more beautiful,
I might have felt that there were less flowers in the meadow
And believed the sun to be uglier….
Because everything is as it is and that’s how it is,
And I accept it, and not thank it,
So it doesn’t appear as if I think about it…)

At times, on days of perfect and exact light,
Where the things have all the reality they can have,
I ask myself slowly
Why even I ascribe
Beauty to things.

A flower does it have beauty?
Is there beauty perhaps in fruit?
No: they have colour and form
And existence only.
Beauty it is a name of a thing that doesn’t exist
Which I give to things in exchange for the pleasure provided.
It means nothing.
So why do I say this of things: are they beautiful?

Yes, it’s the same for me, who’s living only to live,
Invisible, the lies of man come to me
Before the things.
Before the things that simply exist.

How difficult it is to be yourself and only see what is visible!

 

David Scanlon – England – (1963 – )

Pessoa, F.

(2018) The Keeper of Flocks. In Portuguese and translated to English by David Scanlon. The Foolish Poet Press, Wilmslow, Portugal. THE KEEPER OF FLOCKS - XXVI. Page Number 107.

Se eu interrogasse e me espantasse
Não nasciam flores novas nos prados
Nem mudaria qualquer coisa no sol de modo a ele ficar mais belo…
(Mesmo se nascessem flores novas no prado
E se o sol mudasse para mais belo,
Eu sentiria menos flores no prado
E achava mais feio o sol…
Porque tudo é como é e assim é que é,
E eu aceito, e nem agradeço,
Para não parecer que penso nisso…)

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,
Em que as coisas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Porque sequer atribuo eu
Beleza às coisas.
 
Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer coisa que não existe
Que eu dou às coisas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então porque digo eu das coisas: são belas?
 
Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as coisas,
Perante as coisas que simplesmente existem.
 
Que difícil ser próprio e não ver senão o visível!

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa – Portugal – (1888 - 1935)

Caeiro, A. (1914)[1925] “O Guardador de Rebanhos”. Athena, nº 4. Lisboa: Jan. 1925. Alberto Caeiro is an heteronym of Fernando Pessoa.

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